Maria Aparecida é uma mulher normal, nasceu numa cidadezinha do Alagoas chamada Santana do Mundaú, de família pobre, pra não dizer miserável, trabalhou desde de cedo colhendo laranjas na plantação dos outros, seu pai, beberrão convicto e sua mãe, coagida, violada, condescendente da vida que levou, por medo. Maria cresce e como a sina de quem não tem nada, quer tudo e na ilusão acabou engravidando de um rapaz, bom moço, cheio de boas intenções, daquelas que o inferno está cheio. E a vida lhe ensinou que a única coisa que não lhe roubam é a esperança...Mas em compensação lhe roubam tanta coisa, lhe roubam nos impostos, lhe roubam a dignidade, lhe roubam seus poucos pertences.
A chuva veio mais forte esse ano e com a força dela veio a enchente, com a enchente veio a desgraça, Maria perdeu tudo, mesmo sem ter nada, sua casa foi completamente destruída, seu bom moço sumiu e agora o que lhe sobrou foram suas três garotinhas...E agora ela precisa de tudo, de roupa, de comida, de casa, de vida e de amor. Mas ela sabe que ninguém vai enxergar isso, afinal à água não deixa as doações se aproximarem, ela só se pergunta por que Deus deixa isso acontecer, mas seu pastor, também miserável, só que de espírito, diz que isso tudo foi culpa do seu pecado, lhe nega abrigo, lhe nega até conforto espiritual.
Maria sabe que ninguém vai olhar pra ela agora, ela sabe que todos os olhares agora estão na África do Sul, afinal de contas a Copa do Mundo é muito mais interessante pra nós Brasileiros, patriotas, até por que a vida da Maria não é da conta de ninguém, ela que se vire, peça ajuda pro criança esperança. Maria tem certeza que as pessoas se preocupam mais com o Dunga duelando com a TV Globo, ela tem mais certeza ainda que enquanto a copa durar, o Brasil (país) não existe, que tudo está em segundo plano.
Toda vez que o céu fecha e fica escuro, ela sente medo, mas ao mesmo tempo ela descobriu que água não é o que assusta, nem a destruição que ela trouxe, o que assusta mesmo é a apatia das pessoas. Ela sente que mesmo sem ter nada agora, as pessoas apáticas também precisam de ajuda, a diferença entre eles e ela é uma cama pra dormir...Ou uma tv pra se anestesiar. Mas o que ela realmente descobriu numa epifania foi que:
Os pequenos detalhes lhe entregam.
A Defesa Civil de Alagoas computou, até o momento, 34 mortos, 26.618 desabrigados e 47.897 desalojados.
Ismael Almeida
[texto originalmente publicado no 'Folha da Região' - 28/06/2010]



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