25 de novembro de 2010

Conto: A Queda do Conde Bóris Pelo Seu Rival Maximiliano

Bóris Conde Bóris é o nosso gato mais velho e experiente. Tem seu próprio campo de caça, que fica na área arborizada no fundo da nossa casa, lá ele escorraça qualquer cachorro ou gato que entre naquele limite. Na mocidade se vangloriava de uma fama de grande caçador e tinha um método todo especial pra demonstrar seus atributos desportivos, quando caça um rato, coelho, lagarto ou cobra, anda de um lado ao outro até achar a dona, e coloca a presa orgulhosamente a seus pés. Essa mania de demonstra toda sua bravura e determinar, por vezes o coloca em deveras situações embaraçosas, como quando ele traz pro chão da sala uma cobra de um metro e meio pra grande horror do seu público humano. Mas, seja o que for, Bóris nunca se priva de publicidade, seu Ego agüenta muita coisa. Se fosse humano, levaria repórteres especiais pra suas caçadas e no regresso puxaria o saco de todo mundo com jantares cheio de glamour e ostentação, mesmo sem ter faculdade de publicidade, Bóris ia muito bem.

Acredito que os atores de teatro aprenderiam muito em observar a expressão corporal de Bóris, ainda mais quando o assunto fosse “dignidade aristocrática”, pontuada com um ar de arrogância desdenhosa. Muito seguro de si, pavoneia-se pela rua, sem pressa alguma e muito menos sem se preocupar com sua proteção pessoal, por carros que buzinam ou cães que latem, mas não ladram. Quando aparece algum cão novo na vizinhança e o confunde com qualquer gato vulgar e de rua que pode ser perseguido por prazer, Bóris costuma andar mais devagar e posiciona-se na frente do inimigo em potencial, assumindo a pose e a expressão da esfinge. É a imagem por excelência, da serenidade e do perfeito controle emocional. Conde Bóris é conhecido por caçoar de seus inimigos, costuma bocejar muito delicadamente a poucos centímetros do cão raivoso, que fora de si, grunhe com quem solta impropérios ao ver aquela reação, como se aquele gato fosse alguém da alta-classe perante o tédio.

Houve alguns cães que ignoraram a hipnose daqueles olhos cor de mel e partiram pra cima do felino aristocrata, mas esses só puderam ver um trovão de Maximiliano pêlos laranja com garras afiadas ferindo seus focinhos, a fama é tanta que não se pode ver cães de outros lugares. Por anos o reinado de gato da casa nunca colocou Bóris em cheque. Foi então que apareceu Maximiliano, um jovem e bonito vira lata de pelo cinza rajado. Não havia nenhuma dúvida, Maximiliano sabia lidar com as senhoras. Enquanto Bóris o via só como um gatito travesso cujo o senso de humor prevalecia sob o senso de dignidade, Maximiliano foi conquistando todos os corações e, sempre que aparecia recebia todos os holofotes, isso foi demais para o Conde. Bóris sentia-se incomodado com aquela coisinha presunçosa que arqueava o lombo ao avistar uma mão humana aproximando pra acariciar. Bóris sentia de forma cínica que seus dias de glória chegaram ao fim e pior, por um rival ao indigno. Mas ele nunca se rendeu sem uma boa luta e custe o que custa, ele recuperaria seu trono, sua honra e sua glória.

Partiu para a caçada noturna, com o coração frio de um assassino e decido de fazer com que as luzes dos holofotes voltassem para sua persona felina. Todo dia ele aparecia com ratos cada vez maiores, coelhos cada vez maiores e cobras cada vez maiores e aterrorizantes. Tudo em vão. Fez até o papel de herói salvador quando seu rival indigno ficou trepado numa árvore, acuado pelo cão do português da vendinha. Trepou calmamente num dos galhos e aplicou um de seus vários golpes poderosos no focinho do tal cão. Quando Maximiliano desceu da árvore, Bóris lhe dirigiu um ar de superioridade de um cavalheiro benevolente, como se acabasse de salvar uma alma perdida, não por que ela merecesse, mas por que ele era assim. Esta atitude magnânima lhe rendeu uma certa vantagem, pena que momentânea, já que os corações humanos sempre se rendiam ao se deparar com aquela coisinha sedutora. Então Bóris habitou-se a fica sentado no seu cantinho da casa, observando Maximiliano degustando os melhores nacos de carne, onde recebia todo tipo de meiguice.

Foi nesta altura, que para tristeza da família, Maximiliano desapareceu, um busca foi feita, mas ele desapareceu sem deixar rastro, como se uma bruxa o tivesse levado de uma vassoura. Muito tristes, juntamos os seus brinquedos que ele deixara espalhado pela casa: um pedaço de barbante com uma bonequinha de pano amarrada na ponta, uma bolinha colorida e alguns soldadinhos de plástico. E, com estas recordações, fizemos um montinho e colocamos na sua cadeira preferida.

- Há de voltar um dia! – dissemos nós.

Aconteceu uma mudança notável no Conde Bóris Sant’Anne. Faz muito tempo que o consideramos um caçador valoroso e lutador de primeira, mas também sempre o achamos insensível, frio e distante, aliás, como era natural, já que fazia questão de carregar tal fama. Qual não foi nosso espanto ao ver que ele se tornara, do dia pra noite, um gato caloso nas suas demonstrações de afeto e desejoso de nos fazer esquecer o outro que havíamos perdido. Era comovente como ele nos seguia pra todo canto da casa e sempre quando parávamos para descansar, poderíamos sentir aquele felino corpulento com as quatro enormes patas para cima, todo faceiro e ronronando. Aquele ar de rei do pedaço voltou, como se tivesse ganhado uma guerra, como se o velho rei voltou ao lar, ao controle da situação. Uma vez nós o encontramos esticado desdenhosamente em cima dos brinquedos que se amontoavam sob a cadeira preferida de Maximiliano, devia ser uma cama um tanto quanto desconfortável, mas Bóris parecia totalmente confortável. A suspeita assaltou imediatamente sua dona.

- Bóris! – Disse ela bufando de zangada – Acho que você sabe o que aconteceu com lindo Maximiliano!

O acusado ergueu-se em toda sua estatura, olho-a com uma expressão gravemente inocente de um santo ultrajado e depois, virando-lhe deliberadamente as costas e voltando a dormir o sono dos justos. Mesmo assim as suspeitas não cessaram.

- Bóris está se esforçando por demais pra ser bonzinho. – Diziam eles – Não é nada natural. Deve ter alguma coisa pesando sua consciência!

Pois essa poderia ser uma boa maneira de Bóris erguer uma boa defesa, de esconder as maldades. Nós já havíamos constatado no passado. Isso era uma grande humilhação pra um espírito orgulhoso, como era o de Conde Bóris e ele demonstrou seu ressentimento saindo de casa e batendo a porta, como todo macho ofendido.

A família seguiu-o de longe. Ele foi direto pro fundo do terreno, seu campo de caça e território, seu pequeno país, onde ele era o ditador. Ele começou a olhar pra uma clareira, com as orelhas baixas e uma expressão maldosa, que ia dos bigodes nervos até a cauda agitada, não parecia com nada o gato carinho de minutos atrás. Quando nos aproximamos, ouvimos um choro fraco, baixo, assustado. Bem no meio do arvoredo, descobrimos nosso Maximiliano, fraco e esfomeado que mal se agüentava em pé, alquebrado pelo seu carcereiro. Quando Bóris percebeu nossa aproximação, bateu em retirada, pois sabia que a brincadeira acabou. Com um desprezo desdenhoso, ficou a nos observar recolher o rival banido, a dar-lhe comida, leite e muito carinho. Com que artimanhas Bóris havia mantido Maximiliano encarcerado, mesmo ali, ao nosso alcance? Que mágica ele lançou sobre pobre gatinho que nem sequer respondia aos nossos chamados?

Ismael Almeida

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