18 de novembro de 2010

Ensaio: Preenchendo as Lacunas no Espaço

"As tragédias dos outros são sempre de uma banalidade exasperante."
(Oscar Wilde)

Olhe todo aquele sangue escorrendo pelo chão, sinto que a multidão espera por algo mais, me sinto exposto, logo naquilo que tentamos esconder. Vejo uma luz ofuscando a cena, tentando preencher as lacunas no espaço e do tempo. Os amantes ficam com seus braços entrelaçados numa pose final, por que a história está chegando ao fim, mesmo assim ainda permanece todas aquelas coisas que tentamos esconder, posso ver nos seus olhos.

tvtEscolhemos o enquadramento perfeito da cena, é puro ódio jorrando da tela, aquela luz ainda ofusca, na tentativa de preencher as lacunas do espaço, a multidão olha apreensiva, admirando cada gota de sangue, cada humilhação, cada ato de maldade, esperando pelo grande fim, com olhos ofuscados pelo brilho que tenta preencher toda loucura do espaço e do tempo. É puro caos saindo da tela.

Um disparo, corpos caídos no chão, uma explosão, mais um acidente, um choro, pessoas morrendo, a platéia pede mais, fazendo o sangue derramar quadro a quadro, excitada pela desgraça alheia como quem espera um orgasmo, editamos a cena da pior maneira possível, dirigindo uma película manchada de tragédia, ofuscados pelo brilho que preenche a lacuna e a loucura do tempo e espaço, mascarando nossos pecados.

 

Ismael Almeida

[Sobre o fascínio dos seres humanos pelo sensacionalismo da morte e demais tragédias em cena na TV]

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